Memória clandestina

O leitor atento te encontrará nas minhas entrelinhas, mesmo que eu nunca mais tenha escrito sobre nós. Estava a flertar com uma loira diletante e, atrás de um meme para contextualizar a nossa conversa, precisei entrar no Facebook; que traiçoeira essa rede social de gente idosa, fez questão de me lembrar da noite em que começamos a namorar. Lembro-me até hoje do vestido vermelho, do teu sorriso e da forma única que meu coração pulsava quando a minha pele encostava na tua; como resultado disso tudo, as paredes do meu quarto até hoje ainda ecoam o som do teu gemido.
Hoje, o que restou de nós dois foi um livro que eu acho que nem vai ser publicado, as memórias dos nossos momentos e o revirar dos meus olhos todas as vezes que passo por algum cenário que foi cúmplice das nossas peripécias. Queimei todas as cartas que tu me escreveste num ritual para te esquecer; a escrita desse texto é a prova de que ele deu certo. Deve ser porque todo escritor é meio careta e saudosista, fica a transformar momentos bobos em eternidade. Diante do meu breve momento à deriva no meio do restaurante, meus pensamentos são interrompidos por uma voz feminina sentada à minha frente: “Já escolheu o que vai pedir?”