Crônica

Desilusão

agosto 11, 2026 · Pedro K. Calheiros

Não sei se gosto de ti ou da ideia que criei na minha cabeça do que nós poderíamos ter sido. A me embebedar da tua voz, do teu entusiasmo e dos ecos que as nossas almas provocavam uma na outra, fui impelido a acreditar que tudo fora orquestrado pelo acaso com o intento de esbarrar as nossas auras para fazê-las entoar em uníssono.

A memória do teu beijo ainda é doce, e aquele livro na cabeceira, que tu me deste de presente, ainda guarda a marca do teu batom. O tempo é a nau e, à medida que se esvai, nos leva para direções opostas; a intuição, estrela-guia, tenta sussurrar coisas que nem as cartas conseguem me traduzir.

Continuo a te encontrar nos números iguais, nos lugares onde a gente ria alto demais e nos versos soltos que não tive tempo de te recitar. É engraçado como, mesmo nas pequenas coisas, tudo acaba me levando a ti. Outro dia, num lapso entre um devaneio e outro, respondi o teu nome quando a moça da cafeteria perguntou se eu precisava de alguma coisa.

Semana passada, quando acordei de uma soneca da tarde, após um filme de que não lembro o nome, encontrei uma mulher na minha sala de estar. Ela usava uma das minhas camisetas e, com cara de “que porra é essa?”, lia os poemas que te escrevi. O olhar, agora marejado, não tinha mais aquele quê apaixonado de mais cedo; a morena teve meu corpo, alguns orgasmos, uma boa companhia. O problema é que, no final das contas, aquelas rimas denunciaram que eras tu quem ainda tinha o meu coração.

***

Nota do autor: A ironia desse texto é a minha parte favorita. Enquanto o leitor acha que o desiludido é o personagem que conta sobre o coração partido, quem sofre a maior desilusão no texto na verdade é a moça com quem ele está a se relacionar.

Todo e qualquer fato semelhante com a realidade é mera coinciência.