Café Manaós

Alberto saiu do seu escritório. Usava um chapéu esquisito e era observado pelas pessoas ao redor com um misto de curiosidade e graça. Pouco se importava. Havia algo maior do que era capaz de transpor em palavras, e ele seguia, atento, com um livro debaixo do braço. Sorria e cumprimentava as pessoas, que o respondiam, satisfeitas, como se se sentissem felizes em fazer parte daquele momento.
Após andar na contramão do mundo — e, quando digo mundo, me refiro às pessoas da calçada que caminhavam na direção oposta —, o nosso personagem fez o mesmo de sempre e adentrou o café que havia sido seu ponto de encontro com amigos e amores. Quando era jovem, o Café Manaós era um lugar onde intelectuais se encontravam para discutir política, jogar dominó e discutir a métrica de poemas que cheiravam a cachaça.
Os garçons eram seus cúmplices, e toda dama que o acompanhava acreditava, com veemência, que era única. Seu coração de poeta tinha um quê de cafajeste; acreditava que a licença poética estava ao seu lado e que a literatura era o bem maior que justificava as suas atitudes controversas. Estrago maior era quando se apaixonava; o jornal para onde escrevia já sentia algo diferente nas entrelinhas dos seus textos. É que somente um homem que genuinamente estava a sofrer de amor descrevia uma cuia de tacacá como Alberto.
O nosso poeta achava graça do nome do estabelecimento; afinal, nunca havia visto alguém consumindo qualquer coisa lá dentro que não tivesse algum teor etílico. O dono dizia que bar pegava mal, que soava promíscuo, que café era mais gentil e soava familiar. Todos deram uma gargalhada estrondosa porque, enquanto falava, seu Alfredo equilibrava uma bandeja com tanto álcool que seria capaz de embebedar um time de futebol inteiro.
As memórias dos velhos tempos sempre vinham à tona, e a palavra ainda era sua amiga. O petricor invadia o Centro da cidade, e um friozinho começava a ensaiar o canto do entardecer. Havia uma melancolia estranha naquele olhar; era sinal de que a prosa estava a caminho. Nunca sabia sobre o que ia escrever. Estava em dúvida se permitia ser guiado pelo texto ou se contava alguma história dos velhos tempos. Precisava escolher a opção em que mentisse menos para si mesmo.