Crônica

Avisem ao Denis que hoje tem

outubro 10, 2026 · Pedro K. Calheiros

Na época da escola, não era raro encontrar um aluno fazendo o dever de casa antes da aula começar. Ultimamente, embebido de uma miríade de atividades pessoais e laborais, tornou-se comum que eu acabe por escrever as crônicas do jornal no mesmo dia; por vezes, em até meia hora após Denis me enviar mensagem perguntando se haverá material meu para a próxima edição.

O lado bom é que a minha escrita soa de forma mais natural, e eu me sinto, genuinamente, tendo um diálogo com o leitor; as palavras vêm fácil demais quando me dou a veneta de me transbordar a cá. É como se eu não tivesse qualquer obrigação formal com os subterfúgios de uma crônica tradicional, em que toda e qualquer palavra tem um quê a mais do que se pressupõe.

Ontem à noite, enquanto lia um livro antes de dormir, percebi em mim um sentimento de incompletude; era como se, rodeado de tantos livros na minha biblioteca particular, me faltasse tempo de vida suficiente para desfrutar de todos os títulos que me observam, ciumentos, enquanto aguardam a sua vez. Muitos deles têm até o plástico dos tempos em que moravam em uma livraria…

Enquanto meus devaneios matutavam a minha epifania existencial, percebi que aquele momento era de grande valia para uma crônica futura; fiquei a me perguntar com qual frase começaria o texto e travei. A ideia veio, e a minha ansiedade de transmutá-la em alguma coisa deu cabo à ideia em si, que, assustada, foi embora como um gato que normalmente dormiria ao nosso lado se não fôssemos com tanto ímpeto em seu calcanhar.

Haverá, sim, Denis, material; mas, para além dos meus chistes literários, haverá também a esperança de que o nosso cântico literário continue a ecoar por muitas gerações. Quanto aos livros, já aceitei que não lerei todos. Que eles sejam um lembrete a mim mesmo do homem que um dia eu quis me tornar; há quem diga que a biblioteca de um homem é o espelho silencioso da sua alma…