A me perder nas curvas dela

Eu ia escrever uma carta para a morena tropicana, mas a minha psicóloga, num exercício que ainda não entendi direito a razão de ser, me proibiu de escrever cartas de amor – não que eu escreva muitas cartas de amor, mas é que eu precisaria usar esse sentimento para escrever algo para ela. A minha literatura tem tido outro campo fértil e o farfalhar das avenidas, o eco das palavras não ditas e as curvas do Rio de Janeiro têm sido as minhas fontes de inspiração.
Eu me perdi nas curvas dela várias vezes, principalmente enquanto andava pelo Centro da cidade sem qualquer planejamento ou direção. A cidade me levou no seu ritmo frenético, do mesmo jeito que a intensidade da nossa conversa deixou as xícaras de chá frias e esquecidas no canto. Descobri durante as minhas andanças outros jeitos de apreciar a Cidade Maravilhosa – muito além do samba, do Carnaval e dos pontos turísticos óbvios.
O seu sorriso, delineado pelas curvas das montanhas, me faz refletir; o seu perfume traz algo diferente à tona, mas, para mim, o maior mistério era como seria a fusão daquele aroma com o meu. Ela é ambiciosa, algo raro de se ver; é uma personalidade de vários encantos, uma mulher – digo, uma cidade – difícil de se esquecer.
Quando ela estiver a ler essa crônica, provavelmente vai esconder o olhar com o cabelo ou com as mãos (e a minha terapeuta descobrirá que eu falhei no desafio), exatamente como no dia em que fingiu não me ver e, para ganhar tempo, entrei numa loja de joias. A ideia é que a morena leia durante o nosso jantar, mas ainda não decidi se ela merece saber a forma como o meu olhar de poeta a enxerga. Algumas coisas, principalmente as que são delineadas pela dança do flerte, precisam ficar no campo da insinuação.
Ela não foi ao jantar e ainda cancelou a me chamar de amigo. Desfecho bom, hein!
Publicado no Jornal do Commercio do Amazonas no dia 23 de março de 2026.