Crônica

Dolo eventual em matérias que permeiam o miocárdio

novembro 1, 2026 · Pedro K. Calheiros

Antigamente, movido pelos impulsos que envolvem os delírios da paixão, a minha lírica fervia em festa o Ás de Copas que sempre inunda o introito dos mais diversos causos amorosos… Hoje em dia, mais calmo, meu coração já não tem tempo nem para bombear sangue, quem dirá para se perder em alamedas desconhecidas. O grande problema é que com ou sem dolo, deixou um dano que até hoje suscita uma estranha melancolia a pensar em tudo que poderia ter sido e acabou por não ser…

Considerado imprescritível no Código Penal dos assuntos da paixão, o caso, enfim, foi a julgamento. O coração, apesar de ter completo discernimento, assumia o risco ao embarcar em relações que não tinham qualquer chance de prosperar, pondo à prova a sanidade mental de seu dono. A maioria corroborou a tese da acusação; “quem é tresloucado a ponto de levar flores no primeiro encontro?”, indagou a última testemunha a ser ouvida.

O argumento usado pela defesa não colou muito ao alegar caso fortuito, força maior. A defesa chegou a juntar aos autos o modo como ela prendia o cabelo atrás da orelha antes de iniciar uma lide; o juiz, homem vivido, indeferiu por impertinência: as curvas de uma mulher já embriagaram muitos homens, e todos, antes do primeiro flerte, assumiram o risco da empreitada.

Julgada procedente a denúncia, o réu foi condenado a lembrar-se de um certo alguém sempre que for a um determinado café, quando tocar uma música específica e, principalmente, quando encontrar pela casa objetos que não teve coragem de jogar fora. A pena perpétua será cumprida dentro do próprio peito, em regime fechado; o bom comportamento rende, quando muito, noites de trégua, até que chegue o domingo e o réu recomece a cumprir a sentença como se fosse a primeira vez.