Opinião

De FHC a Lula, de Amazonino a Wilson Lima

outubro 6, 2026 · Pedro K. Calheiros

Como a dualidade política transforma adversários em polos e o eleitor em espectador

Há tempos imemoriais, o conceito de dualidade rege a política; irei analisar esse efeito em nível nacional e local, a fim de que o leitor consiga entender onde quero chegar. A política não é matéria recorrente na minha escrita, mas acho que, como escritor, tenho o dever de fazer com que as pessoas pensem por si sós e, principalmente, não concordem com tudo o que eu digo; meu intento é estimular o debate para que observemos além do que nos é imposto; afinal, pensar por conta própria é sexy.

Fotografia dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso (FHC) e Luiz Inácio Lula da Silva, personificando a dualidade política brasileira e a alternância de poder que marcou as últimas décadas do país

A nível nacional, o então presidente Fernando Henrique Cardoso, apesar de ter sido reeleito no primeiro turno, enfrentou muitos desafios em seu segundo mandato, dentre os principais, podemos elencar a desvalorização do real, o fraco crescimento do PIB, a crise do apagão (que levou ao racionamento forçado de energia elétrica) e o aumento da dívida externa do país. Tudo isso contribuiu para a eleição de Luís Inácio Lula da Silva, do PT, que se colocava como um contraponto às políticas de FHC; o discurso do petista era centrado no combate à fome, geração de empregos e desenvolvimento socioeconômico.

Ao assumir o Palácio do Planalto em 2003, Lula promoveu uma agenda pragmática entre a manutenção do arranjo macroeconômico herdado e a ampliação de políticas públicas de transferência de renda, como o Bolsa Família. Impulsionado pelo boom das commodities, o período de vacas gordas no cenário internacional, aliado à expansão do crédito interno, garantiu forte crescimento econômico, ascensão social de milhões de brasileiros e níveis recordes de aprovação popular ao final do seu segundo mandato, em 2010.

Todavia, a estabilidade política do projeto petista conviveu, desde o início, com abalos sísmicos. O escândalo do Mensalão, em 2005, expôs um complexo esquema de cooptação parlamentar para sustentação da base aliada no Congresso Nacional. A despeito da crise política e da renovação dos quadros partidários, Lula manteve expressiva conexão com o eleitorado, reelegendo-se em 2006 e elegendo sua sucessora, Dilma Rousseff.

O desgaste do ciclo petista aprofundou-se de forma decisiva na década seguinte. A combinação entre a severa recessão econômica de 2014-2016 e as investigações da Operação Lava Jato (que atingiram a cúpula do governo, grandes empreiteiras e a própria Petrobras) catalisou um forte sentimento de rejeição sistêmica e consolidação do antipetismo.

A desconfiança nas instituições e o esgotamento da política tradicional criaram um terreno fértil para a ascensão do bolsonarismo. Organizado em torno da candidatura de Jair Bolsonaro em 2018, o movimento canalizou a insatisfação do eleitorado por meio de discursos antissistêmicos, pautas anticorrupção e do “conservadorismo” nos costumes, o que acabou por estabelecer uma nova e profunda polarização na política nacional.

No Amazonas, há um histórico de alternância de poder entre figuras que governam o estado há décadas. Em 2017, após a cassação de José Melo (Pros), o TSE determina eleições suplementares. Entre Eduardo Braga e Amazonino Mendes (os dois sendo considerados representantes da “velha política”), o povo acabou escolhendo o Amazonino, que foi eleito com 59,21% do eleitorado. Momentos assim abrem portas para os chamados outsiders políticos.

Outsider político é uma pessoa que ingressa na carreira política sem qualquer histórico anterior. Donald Trump, por exemplo, nunca exerceu cargo público algum antes de se tornar o presidente dos Estados Unidos. No Amazonas, o povo resolveu confiar em um apresentador de televisão; ele representava a mudança, o novo, ele era confiável porque “era um cara fora da política”, não tinha cara de que ia nos decepcionar…

Um sentimento de mudança passou a habitar o coração dos amazonenses. Foi assim que, mesmo contra a máquina do Governo do Estado, Wilson Lima é eleito governador do estado do Amazonas em 2018, deixando Amazonino Mendes de fora da vida pública. O sentimento de “nós contra o sistema” sempre surge; foi assim que Lula derrotou FHC, foi assim que Wilson Lima derrotou Amazonino Mendes. A polaridade é um fator a se levar em consideração quando analisamos a política.

A dualidade que rege a política, seja nos arranjos de Brasília ou nas entranhas do Amazonas, só cumpre o seu papel quando serve de espelho, e não de viseira. O grande risco de nos deixar levar por polos pré-fabricados é terceirizar o pensamento e aceitar respostas simples para dilemas complexos, principalmente em um país como o Brasil, cujo tamanho lhe confere particularidades que merecem um olhar atento.

Faz-se necessário questionar a narrativa do dia a dia, observar além do que se vê. Cada um de nós é embebido de um repertório particular, e entender a visão diferente do outro a partir dos óculos que ele construiu ao longo da vida inteira tornará as nossas divergências cada vez mais salutares, contribuindo para um país mais democrático e, principalmente, respeitoso, em que quem pensa diferente pode até ser nosso adversário, mas nunca o nosso inimigo.

O poder, independentemente de quem o ocupe, sempre há de deixar uma sombra; uma força sempre há de estar em equilíbrio com uma força contrária. No dia a dia, nos resta o exercício de cidadania para enxergar as nuances entre o preto e o branco; afinal, seguir a boiada é confortável; pensar por conta própria, como afirmei desde o introito, é sexy.