Crônica

A falsa diletante

setembro 12, 2026 · Pedro K. Calheiros

A Inteligência Artificial está matando a nossa capacidade de pensar; o ser humano, embebido em uma miríade de estímulos – a exemplo da televisão e do celular –, está em luta contra um novo vilão. O antagonista novato, ao invés de tentar roubar a nossa atenção, nos dá a falsa sensação de que “sabemos de tudo”.

Um dia desses, enquanto tentava apanhar um táxi com uma amiga, fui indagado sobre como os taxistas conseguiam saber o endereço de todos os lugares. Expliquei sobre o conceito de inteligências múltiplas e disse que, antigamente, era muito comum se desenvolver a chamada “inteligência espacial”, algo que foi atrofiando, pouco a pouco, com o uso de mapas via satélite.

Está tudo bem usar a tecnologia ao nosso favor, mas até quando vamos permitir que ela nos tire a capacidade de fazer coisas simples? Sem repertório, tampouco conhecimento cristalizado, todo e qualquer suporte tecnológico é estéril. Afinal, se não soubermos nos expressar com assertividade, não iremos conseguir construir boas perguntas e, consequentemente, ficaremos órfãos de boas respostas.

Houve uma época em que, em meio a um chiste amoroso, comecei a trocar e-mails com uma personagem que a minha literatura, carinhosamente, chamou de loira cacheada. Algum tempo depois, em meio a um processo editorial, descobri que o e-mail enviado pela falsa diletante fora escrito com o uso de máquinas não humanas. E, cá entre nós, a minha intuição sabia – porque há algumas marcas que delineavam construções textuais típicas de IA.

A decepção amorosa passou, mas ficou uma reflexão que me deixa pensativo toda vez que beberico uma xícara de café; já deixamos de usar a inteligência artificial e nos tornamos reféns do celular para chegar de um lugar ao outro; que tipo de outra inteligência será terceirizada? É por isso que tenho lido sobre arte, sobre cinema, sobre neurociência, dentre vários assuntos que me apetecem a alma.

Nas alamedas onde assistem os amores meus, o flerte com o saber foi o que mais me suscitou juros compostos; que sexy é a ideia de um jantar capitaneado por assuntos que enriquecem a alma. Antes das roupas serem deixadas de lado e o horário permitir palavras de baixo calão, é preciso que haja um preâmbulo; que mania feia essa de querer ir com tanta sede ao pote…