Crônica

Forma e conteúdo

agosto 22, 2026 · Pedro K. Calheiros

Quando se tem consciência de algo, essa coisa deixa de ter poder sobre você – e foi assim que, após anos, quebrei um círculo vicioso na minha vida amorosa. Desde que me entendo por gente, sempre estive gostando de alguém e, por conseguinte, projetando entusiasmo e expectativa na pessoa desejada. Com o tempo, percebi que eu nunca fiquei realmente encantado por boa parte dessas mulheres (exceto as que se tornaram importantes o suficiente para estar em um livro).

No fundo, a busca era pelo sentimento de desejo que essas personagens me provocavam; a idealização, inerente aos escritores, era combustível para a minha escrita. Hoje em dia, num momento da minha vida em que a busca por um romance perdeu o sentido, vejo-me a depositar toda essa energia em mim mesmo. Meus projetos, minha carreira e, principalmente, o império que estou a construir passaram a monopolizar o esforço que antes era despendido em romances malogrados.

Há quem busque refúgio no ópio; embebedam-se de outro mel os tresloucados que mexem com os anseios da paixão. A realidade, opaca, ganha contornos diferentes quando há um personagem novo em cartaz; prepara-se um encontro, conjectura-se um futuro, idealiza-se um cenário ideal para o pedido de noivado. O banho de água fria ocorre quando, em meio a taças de vinho num restaurante caro, se é surpreendido com um “eu achei que estávamos a sair para jantar romântico com uma vela acesa no meio da mesa porque somos amigos.

Após a negativa, todos os sinais, evidentes num primeiro olhar, passam a vir à tona. A incompatibilidade das conversas, diferentes perspectivas acerca do mundo e anseios diversos diante da própria vida são delineados com um marcador de texto laranja. Sinais esses que estavam bem ali, mas que foram ignorados porque o nosso personagem estava ocupado demais desvendando os mistérios da fenda entre um seio e outro. A literatura costuma chamar de forma e conteúdo.

Os bons poemas têm forma e conteúdo. A forma é como se apresenta ao mundo; é um soneto, um haikai ou apenas utiliza versos livres? As rimas são ricas ou preciosas? O conteúdo é o tema abordado, é onde subjaz a essência diletante de quem imprimiu em palavras, mesmo que não admita, uma verdadeira confissão de si.

Em contexto análogo, eu costumava me atentar mais à forma das mulheres do que ao seu conteúdo em si; adaptando, em muitos casos, seu conteúdo raso à sua forma, erro muito comum entre os homens, quando se é jovem, principalmente; o ego, numa armadilha feroz, quer mostrar ao mundo que a sua dialética vai muito além do que é impresso no papel. No fim, meu maior erro foi tratar com métrica quem só sabia escrever em versos livres.

Todo e qualquer fato ou semelhança com a realidade é mera coincidência e não reflete qualquer traço da vida pessoal do autor.