Carta aberta

Sobre a minha aposentadoria como escritor

junho 13, 2026 · Pedro K. Calheiros

Ontem, enquanto revisava um contrato – detalhe, sou graduado em Direito, o que me confere uma solenidade extra na hora de tomar decisões ruins –, decidi que é hora de me aposentar como escritor. Tomei essa decisão com a serenidade de quem tem vinte e cinco anos e acha que já viveu o suficiente para dar uma entrevista de despedida.

Comecei em 2015, aos quinze anos, com um livro de poemas chamado “O amor em quatro versos”. Era romântico, ingênuo e cheio de certezas sobre o amor – três características que o tempo se encarregou de corrigir. Em 2017, veio “Epifania Poética”, e eu já era reconhecido como uma das vozes da nova geração literária amazonense, título que carrego até hoje com o mesmo desconforto de quem recebe um elogio e não sabe se agradece ou discorda.

Em 2020, perdi meu pai. Não vou falar muito sobre isso aqui, porque já escrevi sobre ele de todas as formas que sei, e há uma espécie de intimidade que resiste à narrativa – mesmo a minha, que resiste a muito pouca coisa. No ano seguinte, fui convidado a colaborar com o “Espaço Liberdade”, coluna no Jornal do Commercio do Amazonas, e foi ali que percebi que sou, na verdade, mais cronista do que poeta – percepção que, confesso, demorei para admitir publicamente, porque “poeta” soa melhor nas apresentações. Não deixa de ser curioso que eu tenha descoberto minha voz em prosa justamente no período em que a voz que mais me formou havia se calado.

Em 2023, publiquei “Crônicas de um poeta crônico”, meu terceiro livro, e estreei formalmente na prosa. Em maio de 2026, lancei esse mesmo livro no Rio de Janeiro, no Chora Café, em Botafogo, e numa instituição acadêmica que me recebeu com uma distinção que eu ainda não sei se mereço, mas que aceitei com a educação de quem foi bem criado.

Havia, no horizonte, um quarto livro. “A Dialética do Desejo” seria publicado pela Editora Valer, uma das casas editoriais mais respeitadas do Amazonas, e eu guardei esse projeto com o cuidado de quem sabe que algumas obras merecem o endereço certo. Agradeço sinceramente a oportunidade que me foi estendida – e deixo registrado, com toda a delicadeza que o momento exige, que oportunidades estendidas e depois recolhidas em silêncio têm um nome na literatura: prólogo sem capítulo. O livro não verá a luz do dia, pelo menos não por essa porta. Fica aqui, na gaveta, fazendo companhia aos poemas impublicáveis do Rio.

E agora, encerro.

Não estou triste. Estou, talvez, num daqueles estados que eu mesmo definiria como “estranhamento” – não é tristeza, não é alívio, é só a sensação de quem chega ao fim de uma fila muito longa e percebe que já não se lembra direito por que entrou nela. A literatura me deu mais do que eu mereço e cobrou menos do que deveria; fiz amizades improváveis, viajei, vi o rosto do meu pai nos meus próprios textos, aprendi que uma boa crônica precisa de um drama no meio e de leveza no fim.

Tenho outros mundos para habitar agora. O empreendedor que mora no mesmo corpo que o escritor já tem suas próprias urgências, e ele é, convenhamos, muito mais pontual. A Doutrina Espírita me ensina que nenhuma experiência é jogada fora, que tudo vira aprendizado e o aprendizado, eventualmente, vira serviço. Sendo assim, não estou deixando a literatura – estou apenas parando de assinar embaixo.

O Bartolomeu, meu gato laranja, parece indiferente à notícia. Que bom. É exatamente o tipo de reação que eu esperava do meu público mais fiel.

Obrigado por ter lido. Sempre.

Pedro K. Calheiros Manaus, junho de 2026.