Escritor amazonense é visto vendendo balas na zona sul do Rio

Hoje não tive vontade de conversar com ninguém, muito embora em alguns momentos eu tenha me sentido só. Não tenho conseguido ler nada, tampouco tenho tido vontade de comer – efeito colateral do remédio para TDAH. O curioso é que eu não me sinto triste; acho que a palavra certa é “estranhamento”. O aperto no peito deve ser saudades de uma versão minha que eu ainda não vivi.
Conheci a Livraria Travessa, em Botafogo, e foi uma experiência aprazível. A cafeteria de lá se chama “Verso”; a proposta é boa, mas o pão de queijo é murcho e o chocolate quente, ruim. Enquanto aguardava o meu pedido, fiz amizade com uma moça chamada Júlia. Ela me deu dicas valiosas e me contou que já esteve na Paris dos Trópicos a trabalho, ocasião em que visitou as cachoeiras de Presidente Figueiredo. Após uma conversa amistosa, a jovem moça guardou seus itens tecnológicos numa ecobag e partiu.
Antes de enveredar pelas alamedas do Rio, comprei doces de um rapaz; o problema é que eu comprei tantas balas que fiquei com medo de alguém me fotografar e espalharem pelos jornais do Amazonas: “Escritor amazonense é visto vendendo balas na zona sul do Rio de Janeiro”. Quando percebi a possibilidade de tal equívoco, logo me desfiz de boa parte delas dando de presente para um transeunte que passava com a pressa de quem tem algum lugar importante para não chegar.
Caminhei em direção a praia e, no meio do caminho, ouvi uma música no fone de ouvido. Senti-me dentro de um clipe musical em que um personagem desnorteado se perde e, sem qualquer explicação plausível, aparece nos braços de uma mulher morena com o olhar açucarado. A diferença é que, diferentemente do meu chiste, o passeio acabou às margens do mar, sem quaisquer curvas femininas e, ao invés de um perfume doce impregnado no meu corpo, tudo o que eu sentia era o cheiro do lixo que margeava a Praia de Botafogo.
Publicado no Jornal do Commercio do Amazonas no dia 16 de maio de 2026.